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Amor doentio - controle e dependência

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  • 14 de Abr de 2015
  • Sheila Almeida
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A experiência clínica tem mostrado que a pessoa com amor patológico presta cuidados ao parceiro, mas com o intuito de obter afeto, sem respeitar as necessidades e interesses do outro, muitas vezes com atitude crítica quando não recebe o esperado, contrariamente ao conceito de cooperação, que inclui ajuda desinteressada, tolerância e empatia social. Estudos mostram que pessoas que sofrem de amor patológico também têm dificuldade de estipular metas e de se manter focado nelas. Isso ocorre porque o foco principal de sua vida é manter o parceiro sob controle, porque necessita da sua atenção.

As principais estratégias utilizadas para controle são ligações telefônicas, seguir o parceiro, interrogar sobre as atividades dele, ser extremamente atencioso para com as necessidades dele e provocar ciúme. Há quem diga que o medo é a essência desse amor. A pessoa foge da sensação de isolamento tornando-se parte de outra. Alguns estudos mostram que as reações químicas observadas no cérebro daqueles que vivenciam o amor patológico seriam muito parecidas àquelas encontradas em pessoas que sofrem de transtorno obsessivo-compulsivo ou TOC, uma alteração de comportamento que faz com que a pessoa tenha pensamentos persistentes de medo e ansiedade.

Para aliviar o mal-estar, ela costuma realizar tarefas ou gestos repetitivos, como se desdobrar em cuidados dirigidos à pessoa amada. Tudo indica que a disponibilidade emocional da mãe em situações estressantes, principalmente separações, é o meio pelo qual a criança aprende a perceber e a se relacionar com o mundo. A maioria dos pesquisadores, no entanto, defende que o amor patológico se assemelha à dependência por drogas ou álcool. A pessoa experimenta uma sensação de abstinência quando está longe da pessoa amada, gasta muito tempo e energia em cuidados, abandona atividades para cultivar esse amor, sua dedicação exagerada traz problemas para a pessoa que ama e também para a pessoa amada.

Embora alguns autores comparem os sintomas do amor patológico aos pensamentos repetitivos do TOC, outros estudos têm demonstrado que as pessoas com amor patológico apresentam critérios semelhantes à dependência, como cuidar do parceiro mais do que gostaria, as tentativas de diminuir esse comportamento são insatisfatórias, e surgem sinais e sintomas de abstinência quando há ameaça de abandono. Lembram que a alta impulsividade encontrada no amor patológico se assemelha aos demais transtornos do impulso, como jogo patológico, por exemplo. Para quem sofre de amor patológico, o objeto de desejo torna-se uma prioridade, enquanto os outros interesses ficam em segundo plano.

O outro é sempre mais importante. O estado de exaltação desse amor provocaria fortes descargas de adrenalina, o que pode explicar o estado de constante euforia. As sensações experimentadas por quem vive esse tipo de amor são semelhantes à provocada por altas doses de anfetamina. Isso acontece porque o amor produz sua própria substância, a feniltilamina. Ela também estaria presente no chocolate, o que explica por que algumas pessoas que vivem uma perda gostam de se empanturrar de chocolate.

Um estudo verificou que, independente da cultura, a reação cerebral dos apaixonados é a mesma: ao ver fotos do ser amado, se “acendem” algumas partes do núcleo caudado do cérebro, estrutura que regula a sensação de recompensa. São zonas ricas em dopamina, neurotransmissor que age no cérebro promovendo sensação de motivação e prazer, e endorfina, que desperta sensação de bem-estar e euforia. O fenômeno é semelhante ao que ocorre com dependentes químicos e jogadores patológicos diante da droga de escolha, por exemplo.

O problema é que as pessoas que vivem o amor patológico só buscam ajuda profissional quando perdem o parceiro. E quando isso acontece, elas têm em mente mudar algo em seu comportamento para agradar o parceiro na esperança de assim ele voltar. A terapia procura recuperar comportamentos compulsivos e que envolvam a dependência por sexo, relacionamentos românticos, fantasias e anorexia sexual, partindo do princípio de que o primeiro passo para a recuperação é reconhecer a origem do seu comportamento desajustado.

Uma parcela das pessoas com amor patológico não têm qualquer transtorno psiquiátrico, o que mostra que esse quadro pode surgir isoladamente, mas apresentam alto risco de suicídio, indicando um perfil mais voltado para a autoagressividade do que para a agressão ao sexo oposto. Entre estas pessoas há maior prevalência de depressão e de transtornos ansiosos. E, ao contrário do que se pensava, não existe uma correlação entre amor patológico e intensidade de amor (amor excessivo), mas sim a persistência em um amor que não dá certo e gera sofrimento.

TAGS: amor doentio, descontrole, dependência, sofrimento, isolamento, pensamentos repetitivos, estado de exaltação, autoagressividade, depressão, transtornos ansiosos

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