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Medo, Culpa, Preocupação

  • 07 de Dez de 2006
  • Sheila Almeida
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Medo, Culpa e Preocupação   "Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar". Shakespeare   O medo é uma das emoções básicas do ser humano. Embora o objeto do medo possa ser aprendido, e modificado, ao longo da vida, cada criança já nasce com a capacidade de sentir e expressar medo. Esta emoção tem função adaptativa pois serve para evitar situações de perigo e proteger a sobrevivência. Se o recém-nascido é sacudido bruscamente ou tem seu apoio retirado de súbito, ficando em risco de queda iminente ele tem reações reflexas e fisiológicas (tais como palidez, alteração respiratória e choro intenso) que caracterizam a presença do medo. Muitos medos primitivos, adquiridos ao longo da evolução da espécie, que salvaram a vida de nossos ancestrais, persistem hoje em nós como resíduo inconsciente. Entre eles encontramos o medo de cair, o medo da escuridão profunda, o medo de forças da Natureza descontroladas, o medo de ruídos muito súbitos e muito altos, etc. O homem civilizado os mantém sob controle, inclusive criando um ambiente onde essas situações se reduzam ao mínimo, mas isso não quer dizer que, a qualquer momento, eles não possam ser acionados. A partir deste sistema de alarme e defesa que é o medo primitivo, desenvolvem-se e se ampliam os medos mais atuais, característicos das sociedades civilizadas, como o medo de assalto, de acidente, do desemprego, da perda de status, de não ser amado ou aceito, de ser abandonado e muitos outros. Estes medos, comuns ao homem moderno, são modificados e adaptados às características individuais, tornando-se os medos pessoais. No mundo de hoje, o medo é uma emoção sempre presente, devido ao período de transição e mudanças aceleradas que a Humanidade atravessa. Surgem a cada dia novas formas para antigos perigos, trazendo ameaças novas, com as quais cada pessoa precisa lidar, tanto a nível individual quanto coletivo. Para os homens primitivos, a resposta a esta emoção era natural: afastar-se e/ou combater a situação de perigo; em outras palavras, lutar ou fugir. Atualmente a situação é muito mais complexa pois, devido à estrutura elaborada das relações sociais, interpessoais e ambientais, os indivíduos precisam continuar convivendo com a situação de perigo, expondo-se repetidamente a ela, lidando de formas rituais e indiretas e tolerando a percepção de grande quantidade de medo para não perder os ganhos sociais que os acompanham. A qualidade de vida pode, entretanto ser restabelecida quando a pessoa se conscientiza dos seus medos e trabalha no sentido de fazer escolhas mais protetoras que lhe tragam a segurança e a habilidade de efetivamente colocar-se a salvo. Essas escolhas se dão tanto a nível social, através de mudanças objetivas no contexto e nas relações coletivas, quanto a nível pessoal, seja alterando hábitos e atitudes, seja re-elaborando posturas, sentimentos, crenças e expectativas. Sempre associada ao medo, existe a culpa, que é a imobilidade no presente, em consequência de um comportamento passado. Representa uma das formas mais comuns de angústia e o indivíduo é submetido a uma conspiração de culpa, não deliberada, que o leva a andar, falar, respirar, reagir com culpa, dada a imersão em uma sociedade que gera essa emoção bloqueadora. A culpa é o maior desperdício de energia emotiva, pois nenhuma expressão dessa emoção poderá jamais mudar a história. Aprender com o passado, com os próprios erros, é uma atitude sadia e uma parte necessária do desenvolvimento humano, enquanto que a culpa é doentia, porque nela o indivíduo usa sua própria energia para imobilizar-se no presente. A culpa é um sentimento que causa o ódio de si mesmo e com isso a autopunição e o desequilíbrio emocional. Isso acontece porque geralmente nasce de uma exigência, externa ou interna, de algo que nos leva a submissão. A culpa é o método mais eficaz de fazer com que uma pessoa se submeta aos caprichos ou desejos de outra pessoa. Esse sentimento foi utilizado também por muitas religiões, muitas vezes deixando o sentimento de fé em segundo plano, a fim de submeter os seus fiéis. Quando não fazemos algo que gostaríamos de ter feito ou que poderíamos ter feito, sentimos um pequeno desapontamento que subitamente se vai, a isso chamamos de remorso. Sentir remorso faz parte de nosso aprendizado, por que não é errado errar. O remorso é apenas um aviso que algo está para ser corrigido, e não imperativo como a culpa. Ninguém foi criado para errar, ou pagar por erros dos outros, ou para ser condenado. Nós existimos para fazer o nosso melhor e para aperfeiçoar o nosso melhor através de nossos erros e acertos, segundo a nossa consciência e a nossa capacidade evolutiva. Há dois caminhos básicos, pelos quais a culpa torna-se uma parte da bagagem emocional do indivíduo. Um caminho é a culpa residual, reação emocional que se carrega com as lembranças da infância, quando os adultos manipulavam a criança com advertências, frases depreciativas, etc. Os comportamentos daí decorrentes fazem com que o indivíduo, hoje adulto, sinta-se ferido se decepciona alguém, a quem tenha dado o status das figuras parentais da sua infância, busque persistentemente ganhar-lhes o apoio, do mesmo modo que se auto-flagele quando os esforços não são bem sucedidos. A culpa residual também aparece nas ralações afetivas e no sexo e pode ser encontrada nas numerosas auto-censuras e desculpas infinitas que os adultos dão por seus comportamentos anteriores. Outro caminho é o da culpa auto-imposta, quando o adulto "infringe" um código que ele diz observar. Nesse caso o indivíduo está sendo imobilizado por coisas que fez recentemente, mas que não se vinculam, necessariamente, à sua vida de criança. Essa culpa é imposta ao "Eu" quando uma regra adulta, ou um código moral, é quebrado. O indivíduo pode sentir-se mal por longo tempo, muito embora seu sofrimento nada possa fazer para alterar o que aconteceu. Exemplos típicos de culpa auto-imposta incluem falar asperadamente com alguém e detestar-se por isso, ou punir-se emocionalmente, no presente, em razão de algum ato como roubar uma loja, não frequentar sua igreja ou ter dito alguma coisa errada no passado. Assim, pode-se considerar todas as sensações de culpa ou como reações a padrões impostos residuais, nos quais o indivíduo ainda está tentando agradar a uma autoridade ausente, ou como o resultado de tentar viver de acordo com padrões auto-impostos, que realmente não aceita, mas que por alguma razão finge aceitar. Em qualquer dos casos, é um comportamento distorcido e inútil e a culpa é uma tentativa para mudar a história, para fazer com que ela não seja tal qual é. A Culpa se refere à responsabilidade dada à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. O processo de identificação e atribuição de culpa pode se dar no plano subjetivo, intersubjetivo e objetivo. No sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. O processo pelo qual se dá essa avaliação é estudado pela Ética e pela Psicologia. No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos, quando esses atos resultaram em prejuízo a outros ou a todos. O processo pelo qual se atribui a culpa a um indivíduo é discutido pela Ética, pela Sociologia e pelo Direito. O Sentimento de Culpa ganhou também requintes familiares e muitos pais utilizavam-se desse método para conduzir seus filhos, educando-os através da chantagem emocional, ou do “... se confessar que teve culpa eu o perdôo”. Era comum o pai ou a mãe, quando não obtinham um resultado louvável segundo seus desejos, impor algo para seus filhos utilizando-se de técnicas culpáveis do tipo: “Deus castiga...”, “isso é pecado...”, “eu vou morrer de tanta mágoa...”, “você quer matar a nós dois...” ou ainda punindo com ameaças de falta de amor ou proteção, embaralhando sentimentos e criando assim uma confusão de idéias e lógica de raciocínio, através do desconforto emocional. A preocupação, que muitas vezes decorre do medo e a ele se associa, é o estratagema que mantém o indivíduo imobilizado no presente, em função de alguma coisa futura; quase sempre alguma coisa sobre a qual não tem controle. Com a preocupação o indivíduo gasta à toa o momento presente, obcecado por um evento futuro: está jogando fora o momento presente. Preocupação é o ser imobilizado no presente, em resultado de coisas que irão ou não acontecer no futuro. É diferente de planejar o futuro, atividade que pode contribuir para um momento posterior mais conveniente. A sociedade encoraja a preocupação, que é equacionada em termos de cuidado e, dessa maneira o indivíduo prova amor, carinho, interesse, sentindo a dose apropriada de preocupação na "hora certa". O indivíduo aceita os condicionamentos de preocupação, porque pessoas significativas lhe ensinaram que é "desumano" não se preocupar.Tudo se relaciona com a circunstância de dar importância. Se o ser dá importância aos outros, ou às coisas, então deve mostrar esse interesse dando alguma prova evidente de que se preocupa com o futuro deles. Nem um único momento de preocupação tornará as coisas melhores. De fato, a preocupação muito provavelmente contribuirá para que o ser humano seja menos eficiente ao lidar com o presente. Se uma pessoa sente que tem dificuldade em controlar a preocupação e que isso prejudica o seu grau de concentração nas tarefas que precisa realizar, é provável que a ansiedade esteja rondando o seu dia-a-dia. Podemos dizer também que a ansiedade é parente próxima do medo, sentimento auxiliar na prevenção de situações de risco e alerta. Quando sentimos medo pensamos duas vezes antes de continuar uma ação... Isso porque o medo é, normalmente, um sentimento desencadeado por um fator real: uma cena, um acontecimento que promove descontrole e nos paralisa. Por outro lado, a ansiedade trazida pela preocupação, surge, na maioria das vezes, em virtude de fatos mais subjetivos, que nos deixam “angustiados”, com o peito apertado, como se esperássemos por algo que nem mesmo sabemos o que é... Ansiedade e medo eram sentimentos muito úteis nos tempos das cavernas, em que o homem precisava se proteger dos predadores que ameaçavam sua segurança. Mas, em tempos modernos esses sentimentos são muito mais negativos. E acabam por prejudicar a nossa saúde. Na luta pela sobrevivência, é habitual ficarmos estressados e em estado de alerta ao simples contato com uma situação nova, inesperada e desconhecida, bem como a perda de status, conforto, poder econômico ou, ainda, em situações de descompensação de afetos, amizades, privilégios, etc. Às vezes, quando nos sentimos incapazes de concretizar interesses diversos, nossa mente fica muito acelerada e diante da sensação de perigo e da incapacidade de livrar-se dele, ficamos desestabilizados, a procura de uma solução. E o pior: toda esta confusão interna reflete em nosso físico. Na roda do medo, da culpa, da preocupação, sentimos cansaço físico, taquicardia (coração disparado); respiração ofegante; boca seca; pressão no peito; sono prejudicado; inquietação; sensação de estar “ligado” ou no “limite”, entre outros sintomas. Diante de mudanças, acontecimentos, desafios e oportunidades da vida, o aparecimento do medo, da preocupação e, às vezes, da culpa, é muito comum e acaba interferindo diretamente na auto-estima e amor-próprio, além da autoconfiança. Uma pessoa que deixa de agir, que não atua por medo de não conseguir, por preocupação ou invadido pela culpa, demonstra não acreditar em sua capacidade e em suas habilidades, e assim, está perdendo também a oportunidade de reverter todo esse quadro, que afeta profundamente a vida psíquica do ser humano, isto é, que prejudica o conforto psíquico. Submetida a essas ações sobre o psiquismo humano, a pessoa deixa de ser dona e senhora de seu “eu“, deixa de governar-se e determinar-se a si mesma, perdendo, conseqüentemente, o domínio de seu ser e de sua liberdade. clique aqui para saber mais

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