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O Perdão como atitude resiliente

alianca
  • 11 de Jul de 2017
  • Sheila Almeida
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Perdão, você consegue definir? Ou pelo menos, consegue entendê-lo bem e aplicá-lo facilmente? Segundo o dicionário Michaelis, a palavra perdão significa “conceder perdão, absorver, remitir (culpa, dívida, pena, etc), desculpar e poupar-se”. Ou seja, consiste em absorver o impacto de uma culpa, dívida ou qualquer adversidade poupando-se de um sofrimento maior que o necessário. Interessante como o dicionário associa o conceito “perdoar” a poupar-se, o que parece sugerir uma economia de energia mal gasta com aquilo que já está no passado. Mas se perdão parece ser um benefício, principalmente para quem o faz, quais os motivos para que esta atitude encontre tanta resistência por parte de quem fere e foi ferido?

E quais as implicações no bem-estar da pessoa que não perdoa? Quais os benefícios para a saúde física e mental daquele que consegue lidar com a adversidade? O significado do conceito perdão varia de acordo com quem o vivencia e tem a ver com o sistema de crenças da pessoa. Muitas vezes não perdoamos porque acreditamos que o perdão representa humilhação, fraqueza, vulnerabilidade, contribui para a injustiça, entre outras crenças. Acreditamos que se perdoar, é possível que o indivíduo volte a nos machucar e a se aproveitar da “nossa bondade”, e muitas vezes, essas ideias sustentam a raiva e o desgosto com as ofensas por muito tempo.

De acordo com o dicionário Michaelis, raiva é o mesmo que aversão, antipatia e malquerer, já o rancor pode ser considerado ira deprimida. Desgosto significa ausência de gosto ou prazer, mágoa, pesar e descontentamento, segundo este mesmo dicionário. O problema é que a raiva e o rancor podem se tornar um veneno para a saúde mental e física da pessoa, desencadeando transtornos de ansiedade, depressão, estresse crônico e outros psicológicos. Ao mesmo tempo, estas emoções minam o bem-estar mental e físico, à medida que abate o otimismo, a esperança e todas as emoções positivas da pessoa, até agravar seu sistema cardíaco, neural e até celular.

Para lidar melhor com as emoções ligadas ao passado, estudiosos apontam que é necessário entender que nossas emoções positivas estão ligadas ao passado, ao futuro ou ao presente. Ao conhecer o modo como sentimos, pensamos e vivemos, é possível redefinir nossas emoções direcionando-as de maneira mais positiva. As emoções relativas ao passado vão de contentamento, serenidade, orgulho e satisfação a uma amargura irremediável ou uma raiva vingativa. Estas emoções são fortemente determinadas pelas ideias que temos do passado.

O ponto central é que quanto mais eu acreditar que o passado determina o futuro, maior será a tendência de deixar as emoções de lado e de viver a deriva. No geral, em relação ao passado, apreciamos muito pouco os acontecimentos positivos e damos uma ênfase excessiva aos negativos e o perdão é uma das atitudes que permitem mudar o foco das experiências negativas e gerar emoção positiva e aumentar a satisfação do indivíduo, já que este enfraquece o poder que os acontecimentos negativos têm de provocar raiva e amargura, e permite reescrever a história e renovar a memória, transformando más lembranças em boas.

Cada pessoa desenvolve uma forma de perceber e lidar com o mundo de acordo com seu temperamento emocional, sua história de vida e dos conceitos de mundo formados a partir de suas crenças nucleares. Portanto, o significado atribuído ao perdão é subjetivo e inevitavelmente permeado pelas crenças de cada pessoa. Alguns autores defendem que é possível aumentar o próprio bem-estar mesmo em situações adversas, mas isso depende de como o sujeito se relaciona com seu passado, presente e futuro, afirmando que 40 % da felicidade do sujeito depende das atitudes que toma no dia-a-dia. Portanto, atitudes positivas aumentam a proporção de felicidade, da mesma maneira que atitudes negativas comprometem boas emoções. Ao conhecer o modo como sentimentos (passado), pensamos (futuro) e vivemos (presente), podemos redefinir nossas emoções direcionando-as de maneira mais positiva.

Em geral, os efeitos de um passado negativo são superestimados e a pessoa que sofreu acaba sendo subestimada pelo evento, ou seja, ocorre uma ênfase excessiva aos acontecimentos negativos e pouca apreciação dos acontecimentos positivos. Esse apego ao passado pode ser justificado pelas crenças distorcidas que construímos sobre ele. É comum crenças de injustiça como não é possível perdoar alguém que me fez mal, crenças de vulnerabilidade como se eu perdoar estarei aceitando a crueldade, crenças de fracasso como estarei me rebaixando ao perdoar, ou ainda, crenças de desvalor não serei respeitado se aceitar isso.

Pesquisadores propõem duas maneiras de mudar isso, que só depende da decisão e ação de quem está envolvido: exercitar a gratidão, pois ela aumenta a apreciação dos eventos positivos vividos e praticar o perdão, já que este diminui o poder que os acontecimentos negativos tem de instigar a amargura e permite reescrever a história transformando más lembranças em boas lembranças. Quanto ao perdão, a proposta é dar novo sentido às memórias de eventos desagradáveis e com isso reduzir seus efeitos. O ato de perdoar não significa concordar com a atitude de quem ofendeu, esquecer o que passou ou subjugar-se pelo outro, como pode representar para alguns. Ao contrário, os efeitos positivos do perdão é, antes de tudo, para quem sofreu e não para o ofensor.

Pesquisas comprovam que a saúde física de quem perdoa, em geral, é melhor, porque o perdão leva a neutralidade, quebrando a retroalimentação da emoção negativa. Além da saúde mental, existem várias provas de que deixar para trás a hostilidade, protege a saúde física. Flexibilizar as regras que estabelecemos para nós e para os outros, alivia o estresse e a tensão, ao mesmo tempo em que renova as esperanças e aumenta a resiliência. Perdoar a si mesmo não significa esquecer o erro nem persistir nele, mas começar de novo, dar-se uma nova chance subtraindo aprendizado da experiência sem rancores.

Fica ainda mais evidente a importância de valorizar as forças pessoais que o indivíduo possui para superação das adversidades, ao invés de enfatizar os recursos que não possui, pois entende-se por vida mais positiva não aquela ausente de adversidades ou desafios, até porque não existe, mas aquela que aprecia as qualidades e potencialidades humanas. Se o sujeito desperdiça seu tempo presente ocupando-se com adversidades passadas, dificilmente terá boas perspectivas para o futuro próximo. Para florescer na vida, é necessário desenvolver primeiro a resiliência. A motivação de qualquer indivíduo para fazer alguma coisa, está condicionada à sua capacidade de acreditar num futuro melhor e agir positivamente em função dele. Portanto, a resiliência representa um recurso social, pessoal e profissional fundamental para qualquer cidadão que busca uma vida mais positiva. 

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